Talvez na última quinta feira santa, você tenha participado da missa do lava-pés! É um rito antigo da liturgia da Igreja Católica que ainda tem um significado muito atual. Em tempos tão difíceis e diferentes, mas com possibilidades de grandes transformações, por que lavar os pés? Porque estamos no tempo da Páscoa. Jesus ofereceu a sua vida renovando as esperanças da humanidade.
A semente foi lançada, os terrenos são os mais variados possíveis, mais tarde vai germinar e dar seus frutos, por que a semente é de primeiríssima qualidade, não existe outra melhor. A semente da Boa Notícia do Mestre Jesus é única e não tem outra para ser comparada.
Por isso, quero lembrar o que Ele Mestre e Senhor fez: " se eu vosso Mestre e Senhor lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros" (Jo 13, 14). O que significa para o hoje da nossa existência esse mandato, que sucede ao gesto concreto de lavar os pés dos seus companheiros antes de comer a última ceia com eles?
Olhando na perspectiva social e de relacionamento de nossa convivência, penso que poderíamos extrair algumas pistas bem concretas. Lavar significa purificar, deixar limpo, tirar a sujeira, criar um ambiente novo. Os pés formam a base, dá segurança no caminhar, fazem entrar em comunicação com o outro, nos possibilitam criar relações com o diferente.
Assim, lavar os pés significa purificar nossas relações humanas, formais e frias, mantidas na base do tapinha nas costas, mas que depois detona em críticas e julgamentos comprometendo a própria honra e a dignidade. Lavar os pés significa tirar a sujeira das relações de domínio e exploração que distancia e cria rupturas intermináveis. Lavar os pés significa criar relacionamentos verdadeiros, tirando as máscaras da enganação e das vantagens pessoais. Lavar os pés significa inverter os comportamentos egoístas e interesseiros que exclui e marginaliza o outro.
Lavar os pés significa dar oportunidade ao caído e fazer com que ele caminhe com os próprios pés. Lavar os pés significa encurtar distâncias, vencer diferenças, superar divisões transformando os inimigos em amigos. Lavar os pés significa deixar de lado o ódio, a vingança, a raiva que mata toda a possibilidade de reconciliação.
Lavar os pés significa defender a dignidade e a vida desde o nascimento até a morte natural. Lavar os pés significa não fazer do carro uma arma que mata, fere e tira a possibilidade de viver sem traumas. Lavar os pés significa assumir juntos, as lutas contra as epidemias, principalmente contra a dengue que é uma verdadeira ameaça à vida humana.
Na compreensão do mandato de Jesus, está a pessoa que deve ser amada sem colocar condições, começando pelo amor a nós mesmos, para poder amar. Diante deste mandato do Mestre e Senhor não tem outra saída a não ser a do serviço desinteressado ao outro, sem se importar quem seja. As manchas da sujeira vão desaparecer, os pés ficarão limpos na medida que fomos capazes de criar relacionamentos verdadeiros, onde o abraço de quem ama é mais importante que o tapinha de fachada.
O hoje exige de todos a construção de pontes e não muros, fazer das rupturas e divisões oportunidade para crescer criando espaço para uma vida melhor. Na medida em que nos distanciamos uns dos outros, também vamos distanciando de nosso Deus. O relacionamento transparente e sincero favorece uma oração limpa e sincera.
Esta é a hora para atar compromissos porque todos somos responsáveis para fazer a Palavra de Deus se tornar vida e não só discurso ou meditações piedosas. O mundo grita por testemunhos, exemplos de vida, cristãos tocados e apaixonados pelo Mestre Jesus. Assim o lavar os pés não fica somente um teatro a se repetir uma vez por ano, e o evangelho se tornará Palavra de vida e de vida eterna.
Dom Bernadino Marchió
Bispo Diocesano de Caruaru - PE
FONTE: JORNAL VANGUARDA (CARUARU - PE)

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